No
meio da guerra, não há tempo para lembrar. Homens ferozes, lutando cada
um por sua mais justa e nobre causa , regam com sangue o solo de seu
futuro, incerto e sombrio que possa ser, sem sequer se importar em
conhecer quais sementes alimenta. A guerra não é um bom lugar para as
velhas histórias, embora seja inegavelmente um bom alimento para a nova
geração destas. Os orfãos crescerão ouvindo a história da gloriosa morte
de seus pais, dos milagres de guerra e das visões de vitória. E assim,
uma nova guerra se instaura, e histórias lutarão entre si: as vitoriosas
serão guardadas para a posteridade em lendas e canções enquanto as
derrotadas serão esquecidas, memórias apenas parcamente revividas nas
finas páginas de um livro antigo que porventura a tenha brevemente
mencionado.
Assim,
correndo o risco de ser acusado de covardia ou deserção, aqui confesso
que, em domínio de plenas faculdades mentais e não muito longe do auge
de minha forma física, escolho não tomar parte alguma na guerra, nem ao
lado de meu país, nem ao lado de qualquer outra força participante desse
conflito. Faço isso pois as penas que se movem agora fazem movimentos
agressivos e tendenciosos e temo que, se minhas suspeitas estiverem
corretas, as histórias importantes serão logo olvidadas ou sequer
conhecidas.
Esse
tomo é meramente uma coleção, e não tenho pretensões atualmente que se
torne um livro. Aqui, guardarei minhas referências,anotações, recortes e
traduções que farei por conta própria ou com ajuda de meus
colaboradores quando necessários. Assim, caso o desânimo ou a morte
caiam sobre mim, é minha esperança que alguém no mundo ( mesmo no “novo
mundo” que estamos construindo ) tenha um uso crucial para elas. È
preciso que, caso a verdade não se revele até o fim dessa guerra, que
seja revelada algum dia. E embora eu desejasse poder, de forma direta,
revelar que verdade é essa, tudo que tenho são especulações e
desconfianças, e a certeza que várias perguntas foram deixadas sem
respostas e muitas outras não foram feitas ainda. Quando a guerra
realmente começou? Quem são os verdadeiros interessados nela? Como o
Templo parecia ter antecipado desde o princípio que ela iria acontecer?
Quem são, e quais são os objetivos, do grupo de jovens sem nome e porque
há um prêmio por suas cabeças antes mesmo que o primeiro crime tenha
sido cometido por eles? E porque pelo menos dois dos polos da guerra tem
interesse em clamar esses jovens como seus? E quem é, de verdade, a
“Benção-da-agua” e como veio a controlar tanto poder sem o conhecimento
do mundo?
Essas,
e muitas outras perguntas, não foram respondidas por muitos
governantes, por ignorância ou descaso e aqui me proponho a fornecer uma
suspeita razoável. Mas alerto: As peças aqui precisarão ser bem
compreendidas, estudadas e não é sem uma pequena porção de confiança no
absurdo que poderão ser entendidas. O que enfrentamos hoje não é nosso
presente, e sim algo passado, algo muito antigo, fruto dos conflitos que
não terminamos e de seres que se recusaram a morrer. Deles há
histórias, poemas, canções e até mesmo artigos, embora nenhuma
afirmação. Um desses inclusive, cheguei a conhecer, e o relato desse
encontro escreverei quando estiver melhor preparado e puder elaborar com
clareza os acontecimentos dos meses que estive em contato com tal ser.
Verão, os que quiserem, coisas que deixamos passar, coisas simples e
óbvias que nos dão aos poucos fragmentos de uma história abortada, uma
história trancada, uma história nunca contada. E se prestarmos bastante
atenção, heróis virarão vento e do vento surgirão os heróis; e o que foi
de amor se tornará fria estratégia; e cidades inteiras cairão por amor.
E
por fim, faço essas anotações e pesquisas pois, desesperançoso,
acredito que independente de qual lado vença, a vitória do homem será
parca e ilusória, e o homem sentirá que regeu seu próprio destino sem
nunca tê-lo feito. Essa história é um apelo, para caso chegue o mundo a
dias mais poeirentos, com nossas próprias armas e artefatos tornados
contra nós mesmos, que se erga a humanidade, armada de conhecimento e da
certeza que ainda poderemos vencer. E caso, para a minha felicidade e a
de toda a Laeria, todo o evento marque uma nova era de prosperidade ou
eu acabe sendo apenas mais um louco conspiracionista, espero que esse
compêndio sirva como leitura interessante de uma coleção de textos
muitas vezes raros.
Assim, aqui concluo minha introdução, lembrando alguns clássicos versos do Kororo Satí:
“E o trovão entregou-lhe a marca da flor
Brotando da angústia de seus pecados;
Mas o Crisântemo fez-lhe mais forte,
Pois as lâminas de seu passado
Deram-lhe sussurros para perfurar ouvidos
E punhos gentis para estraçalhar uma alma”
Professor Kaal Maase