sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Thotis Laeria

No meio da guerra, não há tempo para lembrar. Homens ferozes, lutando cada um por sua mais justa e nobre causa , regam com sangue o solo de seu futuro, incerto e sombrio que possa ser, sem sequer se importar em conhecer quais sementes alimenta. A guerra não é um bom lugar para as velhas histórias, embora seja inegavelmente um bom alimento para a nova geração destas. Os orfãos crescerão ouvindo a história da gloriosa morte de seus pais, dos milagres de guerra e das visões de vitória. E assim, uma nova guerra se instaura, e histórias lutarão entre si: as vitoriosas serão guardadas para a posteridade em lendas e canções enquanto as derrotadas serão esquecidas, memórias apenas parcamente revividas nas finas páginas de um livro antigo que porventura a tenha brevemente mencionado.


Assim, correndo o risco de ser acusado de covardia ou deserção, aqui confesso que, em domínio de plenas faculdades mentais e não muito longe do auge de minha forma física, escolho não tomar parte alguma na guerra, nem ao lado de meu país, nem ao lado de qualquer outra força participante desse conflito. Faço isso pois as penas que se movem agora fazem movimentos agressivos e tendenciosos e temo que, se minhas suspeitas estiverem corretas, as histórias importantes serão logo olvidadas ou sequer conhecidas.


Esse tomo é meramente uma coleção, e não tenho pretensões atualmente que se torne um livro. Aqui, guardarei minhas referências,anotações, recortes e traduções que farei por conta própria ou com ajuda de meus colaboradores quando necessários. Assim, caso o desânimo ou a morte caiam sobre mim, é minha esperança que alguém no mundo ( mesmo no “novo mundo” que estamos construindo ) tenha um uso crucial para elas. È preciso que, caso a verdade não se revele até o fim dessa guerra, que seja revelada algum dia. E embora eu desejasse poder, de forma direta, revelar que verdade é essa, tudo que tenho são especulações e desconfianças, e a certeza que várias perguntas foram deixadas sem respostas e muitas outras não foram feitas ainda. Quando a guerra realmente começou? Quem são os verdadeiros interessados nela? Como o Templo parecia ter antecipado desde o princípio que ela iria acontecer? Quem são, e quais são os objetivos, do grupo de jovens sem nome e porque há um prêmio por suas cabeças antes mesmo que o primeiro crime tenha sido cometido por eles? E porque pelo menos dois dos polos da guerra tem interesse em clamar esses jovens como seus? E quem é, de verdade, a “Benção-da-agua” e como veio a controlar tanto poder sem o conhecimento do mundo?

Essas, e muitas outras perguntas, não foram respondidas por muitos governantes, por ignorância ou descaso e aqui me proponho a fornecer uma suspeita razoável. Mas alerto: As peças aqui precisarão ser bem compreendidas, estudadas e não é sem uma pequena porção de confiança no absurdo que poderão ser entendidas. O que enfrentamos hoje não é nosso presente, e sim algo passado, algo muito antigo, fruto dos conflitos que não terminamos e de seres que se recusaram a morrer. Deles há histórias, poemas, canções e até mesmo artigos, embora nenhuma afirmação. Um desses inclusive, cheguei a conhecer, e o relato desse encontro escreverei quando estiver melhor preparado e puder elaborar com clareza os acontecimentos dos meses que estive em contato com tal ser. Verão, os que quiserem, coisas que deixamos passar, coisas simples e óbvias que nos dão aos poucos fragmentos de uma história abortada, uma história trancada, uma história nunca contada. E se prestarmos bastante atenção, heróis virarão vento e do vento surgirão os heróis; e o que foi de amor se tornará fria estratégia; e cidades inteiras cairão por amor.

E por fim, faço essas anotações e pesquisas pois, desesperançoso, acredito que independente de qual lado vença, a vitória do homem será parca e ilusória, e o homem sentirá que regeu seu próprio destino sem nunca tê-lo feito. Essa história é um apelo, para caso chegue o mundo a dias mais poeirentos, com nossas próprias armas e artefatos tornados contra nós mesmos, que se erga a humanidade, armada de conhecimento e da certeza que ainda poderemos vencer. E caso, para a minha felicidade e a de toda a Laeria, todo o evento marque uma nova era de prosperidade ou eu acabe sendo apenas mais um louco conspiracionista, espero que esse compêndio sirva como leitura interessante de uma coleção de textos muitas vezes raros.
Assim, aqui concluo minha introdução, lembrando alguns clássicos versos do Kororo Satí:

“E o trovão entregou-lhe a marca da flor
Brotando da angústia de seus pecados;
Mas o Crisântemo fez-lhe mais forte,
Pois as lâminas de seu passado
Deram-lhe sussurros para perfurar ouvidos
E punhos gentis para estraçalhar uma alma”



Professor Kaal Maase

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